Crítica | Enola Holmes e o ousado enredo que conquistou o público

A aventura repleta de descobertas conta a história da detetive de 16 anos que não precisou usar o nome do famoso irmão, Sherlock Holmes, para ser bem sucedida.

Reprodução: Netflix.

Ficha Técnica: Enola Holmes 

  • Título Original: Enola Holmes
  • Duração: 123 minutos
  • Lançamento: 23 de setembro de 2020
  • Distribuidora: Netflix
  • Direção: Harry Bradbeer
  • Roteiro: Jack Thorne 
  • Elenco: Millie Bobby Brown, Sam Claflin, Henry Cavill, Helena Bonham Carter, Louis Partridge, Burn Gorman, Frances de la Tour, Fiona Shaw, Susie Wokoma, Adeel Akhtar.

Sinopse oficial da Netflix:

“Quando sua mãe desaparece em seu aniversário de 16 anos, Enola procura a ajuda de seus irmãos mais velhos. Mas assim que ela percebe que eles estão menos interessados em resolver o caso do que mandá-la para o internato, Enola faz a única coisa que uma garota esperta, cheia de recursos e destemida em 1880 faria. Ela foge para Londres para encontrá-la. Encontrando diversos personagens memoráveis pelo caminho, Enola se acha no meio de uma conspiração que pode alterar o rumo da história política”

Trailer:

Trailer Enola Holmes

O mês de setembro chegou ao fim repleto de adaptações nos serviços de streaming muito bem recebidas pelo público e até mesmo pela crítica. Enola Holmes, obra original da Netflix, foi um desses filmes, por conseguir agradar e divertir os dois lados. O longa foi lançado na última quinta-feira (23) e alcançou o 2º lugar no Top10 dos mais assistidos da plataforma em menos de 24 horas desde seu lançamento. Um dia depois, ocupou o primeiro lugar e, pelo visto, não perderá essa posição por alguns bons dias.

Desde março de 2020, quando a pandemia do coronavírus (COVID-19) entrou em estado de alerta em todo o mundo, as pessoas que decidiram seguir as recomendações de permanecerem em casa estão ficando cada vez mais entediadas e necessitadas de um passatempo. Com um tempo diário maior do que o habitual em casa, a  maioria acaba tendo algumas horas de sobra para recreação e lazer. E no meio de uma pandemia, todo entretenimento acaba sendo minuciosamente consumido e avaliado. Com isso, Enola Holmes se apresentou a um público sedento por uma distração que pudesse transportá-lo por alguns minutos de tudo que está acontecendo no mundo. Essa tarefa de agradar a maioria dos espectadores e dos críticos é bastante difícil, mas o longa conseguiu cumprir com graça, charme, maestria e grandes ensinamentos.

Rotten Tomatoes

Enola Holmes no Rotten Tomatoes

O filme apresenta tantos pontos positivos, que é até difícil lembrar de cada um ao fazer uma avaliação geral. A primeira coisa a ser notada é o elenco que foi muito bem escolhido, com grandes nomes como Millie Bobby Brown (Stranger Things), Henry Cavill (The Witcher), Sam Claflin (Jogos Vorazes) e Helena Bonham Carter (Harry Potter). Além disso, revelou um novo talento chamado Louis Partridge, que foi muito elogiado por sua interpretação. Até mesmo os papéis secundários foram bem vistos. Porém, nada foi tão agradável quanto apreciar a atuação de Millie Bobby Brown e a naturalidade que a mesma trouxe ao papel. Como se nenhuma outra atriz pudesse ter feito uma Enola tão carismática como ela fez.

Millie Bobby Brown consegue nos prender ao “olhar para nós” e conversar abertamente desde os primeiros segundos do filme, por meio da quebra da quarta parede. Esse efeito de quebrar uma barreira imaginária para conversar com o espectador é muito popular em filmes e séries, mas ainda assim é difícil de agradar ao público, podendo se tornar cansativo se não for feito com moderação. Mas a interação de Enola é certeira, por acontecer em momentos propícios e até cômicos, nos incluindo em toda aquela aventura e adivinhações de charadas. O diretor do filme, Harry Bradbeer, é expert no assunto por usar do mesmo recurso de interação com o público na série Fleabag (2016).

O que é a quebra da quarta parede que acontece em Enola Holmes?

As frases de efeito e narrações ao longo do filme – sejam conosco ou entre os personagens – são claras e de fácil entendimento, mesmo se passando em outro século. O ritmo é leve e descontraído. No longa, não somos apresentados somente à jovem Enola Holmes, que não era muito popular antes. Seus irmãos, Sherlock (Henry Cavill) e Mycroft Holmes (Sam Claflin), já bem famosos e conhecidos há décadas, ganham um novo toque em suas personalidades e caráter com apenas 2 horas de filme. 

Em termos técnicos, a fotografia pode até ser considerada simples, por não se preocupar em tirar o fôlego, mas se arrisca em ângulos e planos abertos. O maior trabalho ficou para a direção de arte, que foi impecável em todos os detalhes para uma melhor ambientação ao século XIX, sejam esses detalhes grandes – como os figurinos e os cenários – ou pequenos – como as notas de dinheiro, os jornais e os acessórios. A edição do filme também agradou em várias cenas com pouquíssimos cortes e nas transições (flashbacks) entre o presente e o passado, que foram muito bem encaixadas.

É importante lembrar que a trama foi baseada no livro “Os Mistérios de Enola Holmes – O Caso do Marquês Desaparecido“, de Nancy Springer. Embora o visual geral seja clássico, ainda é um filme não convencional. Isso porque a história não só acompanha as aventuras de Enola em busca de sua mãe, Eldoria (Helena Bonham Carter), ou ajudando o Lorde Visconde Tewksbury (Louis Partridge), mas também aborda temas feministas e políticos, como o voto feminino e a luta das mulheres para terem voz na sociedade. Além disso, Enola é tão inteligente quanto seu famoso irmão mais velho, Sherlock Holmes, e é ensinada desde criança pela mãe que pode fazer tudo o que um homem faz (e até melhor). A personagem pratica defesa pessoal, usa calças, lê bastante, gosta de enigmas e tem opiniões bem fortes em relação a si mesma e ao mundo.

As mensagens do filme são tão poderosas quanto a personagem principal, que nos prende com sua determinação e simpatia. O romance (sim, possui um romance super fofo), diferente da maioria dos filmes com protagonistas adolescentes, fica em segundo plano. No meio do longa percebemos uma coisa: esse não é apenas um filme de aventura e enigmas, mas sim um filme sobre descobertas! Em certo ponto, Enola – e até mesmo nós – percebe que a busca mais importante não é por sua mãe ou pelo Lorde, mas por si mesma e por quem ela almeja ser. O filme pode ser considerado um exemplo do gênero Coming Of Age, onde a protagonista passa por um amadurecimento em meio a trama. É a história de uma garota de 16 anos trilhando seu próprio papel no mundo, buscando ser conhecida por seu talento e não por seu sobrenome.

“Existem dois caminhos que você pode seguir, Enola: o seu ou o caminho que os outros escolherem para você.” – Eudoria Holmes, mãe de Enola.

Enola Holmes não é um simples filme para ser assistido por puro entretenimento e depois esquecer. É uma obra que te faz pensar, seja por meio de frases ou até mesmo em uma cena sobre o uso de espartilhos. É um grande exemplo da jornada da heroína e do empoderamento feminino. Tudo isso ambientado em outro século, com um toque de carisma, humor e aventura. De trás para frente, Enola significa “alone” (“sozinha” em inglês), mas isso não quer dizer que a protagonista esteja solitária em sua aventura, já que conquistou milhares de novos fãs.

A Jornada da Heroína de Maureen Murdock simplificada

A grande questão no momento é se o filme terá uma continuação, que está sendo muito pedida por quem já o assistiu. Nancy Springer, criadora de Enola Holmes, possui uma série de seis livros homônimos contando as aventuras da jovem. Com isso e com a aprovação do público, o longa possui muitos dos elementos para se tornar um grande sucesso de franquia, mas ainda cabe a Netflix decidir o que fará com a história da detetive Enola Holmes.

“Sou uma detetive, sou uma decifradora, alguém que encontra almas perdidas. Minha vida é só minha, e o futuro só depende de nós.” -Enola Holmes.

Nota do Portal Protagonista – Enola Holmes

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Autor: Mayara Pereira

Eu juro solenemente não fazer nada de bom.

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