A narrativa da Jornada da Heroína

Conheça os estágios que compõem esse modelo estrutural de narrativa feita por Maureen Murdock, que aos poucos está marcando presença em filmes, séries e livros.

Créditos: Lionsgate

Nos anos 90, Maureen Murdock criou a narrativa da Jornada da Heroína com sua publicação “The Heroine’s Journey: Woman’s Quest for Wholeness” (1990, ‘A Jornada da Heroína: A Busca da Mulher pela Integridade’). Murdock, que era estudante do trabalho de Joseph Campbell sobre a Jornada do Herói, percebeu que a famosa narrativa de Campbell não continha a busca psicológica e espiritual da mulher contemporânea. Com isso, ela criou uma narrativa paralela, porém contando com aspectos como as angústias, os dilemas, a natureza cíclica e as experiências femininas. 

Stéfanie Garcia Medeiros é formada em jornalismo pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Atuou como repórter no jornal “Diário de Cuiabá” e como editora de cultura no site de notícias “Olhar Direto”. Além disso, é mestre em escrita criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), onde desenvolveu a dissertação A jornada da heroína: estrutura narrativa para roteiros de ficção. Começou o doutorado em Escrita Criativa na PUCRS em 2019. Atualmente, é monitora da oficina de criação literária do professor Luiz Antonio de Assis Brasil. 

A mesma nos conta que em 1990, Maureen Murdock publicou o livro “The Heroine’s Journey” como uma resposta ao modelo da Jornada do Herói proposto por Joseph Campbell em “O Herói de Mil Faces”. “Murdock, uma psicoterapeuta com orientação junguiana, combinou seu estudo de mitologia e sua experiência profissional para desenvolver um novo modelo. A premissa desta nova jornada é a insatisfação e sentimento de esterilidade que muitas mulheres expressavam ao terem passado pela Jornada do Herói e serem, pelos modelos desta estrutura, bem sucedidas. De acordo com a autora, este vazio é resultado de mulheres seguirem uma jornada que nega aspectos de quem elas são.  A pesquisa de Murdock teve como resultado a descrição de dez estágios da Jornada da Heroína. São eles: Separação do feminino; Identificação com o masculino; Estrada de provações; O sucesso ilusório; Despertar para a aridez espiritual: morte; Iniciação à descida para a Deusa; Reconexão com o feminino; Cura da divisão mãe/filha; Cura do masculino machucado; Integração do masculino e feminino.”

Jornada da Heroína — O que é e como utilizar?

A Jornada da Heroína ainda é um assunto muito recente e pouco falado no Brasil, mas Stéfenie nos conta sua própria jornada até seu encontro com essa narrativa, que a levou a ser pesquisadora do tema.

“No final de 2016, quando me preparava para a seleção do mestrado em escrita criativa na PUCRS, li pela primeira vez “A jornada do Escritor”, do Christopher Vogler e, em seguida, “O Herói de Mil Faces”, do Campbell. Sentia que uma das minhas maiores dificuldades na escrita de romances ou roteiros era estruturar a trama, então o livro despertou meu interesse. Já no mestrado, uma colega (a María Elena Morán) me apresentou a Jornada da Heroína, inclusive me emprestando o livro da Maureen Murdock (“The Heroine’s Journey”, 1990) e da Kim Hudson (“The Virgin’s Promise”, 2009). Desde então, o foco da minha pesquisa continua sendo estruturas narrativas com foco no protagonismo de mulheres, em especial a jornada elaborada pela Murdock”, ela conta.

O que é a Jornada da Heroína?

A Jornada da Heroína se baseia em experiências de filhas de pais que idealizaram, se identificaram e se aliaram intimamente à cultura masculina dominante. Com isso, essas filhas querem se desassociar à figura da mãe e deturpam os valores da cultura feminina, já que o feminino é visto como algo negativo. É então que, desde criança, pode haver rejeição quanto às qualidades do universo feminino, como a intuição, expressividade, criatividade e espiritualidade. Esse tipo de busca por separação pode vir pela imagem das mulheres que são mostradas pela mídia, que na maioria das vezes são impossíveis de se identificar.

Créditos: maureenmurdock.com

Você também pode conferir cada estágio da Jornada da Heroína em português:

Créditos: Isabella Velleda (A Jornada da Heroína no Cinema)

Essas etapas não são necessariamente restritivas, já que a heroína pode querer se desassociar da mãe sendo ela uma boa mãe ou uma mãe-vilã. Além disso, uma pessoa pode se encontrar em mais de uma etapa ao mesmo tempo e esse modelo não se restringe à idade ou gênero, se voltando à qualquer pessoa que queira fazer a diferença no mundo.

Depois de passar pelos nove primeiros estágios, a heroína finaliza com a integração do feminino com o masculino. É quando a mulher se aceita como ela é, se lembrando de sua verdadeira natureza e abraçando todos os seus aspectos. Esse é o momento de reconhecimento e lembrança de quem ela sempre foi, mas deixou escondido em seu âmago. Seus conflitos permanecem e seu sofrimento serve para guiar uma nova vida. Ao desenvolver uma nova consciência feminina, ela também precisa se conciliar com uma consciência masculina em si; a união do feminino com o masculino consiste em reconhecer as próprias feridas, abençoá-las e depois deixá-las ir.

Créditos da imagem: Ezoom (Precisamos falar sobre a Jornada da Heroína)
“A heroína deve se tornar uma guerreira espiritual. Isso exige que ela aprenda a delicada arte do equilíbrio e tenha paciência para a integração lenta e sutil dos aspectos feminino e masculino de sua natureza. Ela primeiro tem fome de perder seu eu feminino e fundir-se com o masculino e, uma vez que tenha feito isso, ela começa a perceber que isso não é a resposta nem o objetivo. Ela não deve descartar nem desistir do que aprendeu ao longo de sua jornada heroica, mas ver suas habilidades e sucessos conquistados com dificuldade, não tanto como o objetivo, mas como uma parte de toda a jornada. Esse foco na integração e na consciência resultante da interdependência é necessário para cada um de nós neste momento, enquanto trabalhamos juntos para preservar a saúde e o equilíbrio da vida na terra.”
(Murdock, 1990, p.11)

Embora tenha etapas com detalhes específicos, a Jornada da Heroína não é tão difícil de ser identificada em filmes, séries ou livros. Para Stéfanie Garcia, os aspectos mais fáceis de reconhecer são os dois primeiros e o último estágio da jornada da Murdock, que são: separação do feminino, identificação com o masculino e união do masculino/feminino.

“Um exemplo muito didático é a animação “Valente” (Pixar Animation Studios, 2012), que conta a história da princesa escocesa Merida. A animação começa com um prólogo, onde uma Merida ainda criança ganha um arco e flechas de seu pai. O prólogo encerra-se quando o grupo, treinando com o novo instrumento, é atacado por um urso. Logo, somos apresentados à vida cotidiana de Merida, onde vemos, principalmente, sua relação com sua mãe. Em uma sequência, vemos a rainha Elinor treinando Merida em eloquência, história, música, etiqueta e todos os outros aspectos no qual a princesa deve “almejar a perfeição”. Nesta mesma sequência em que Merida é educada pela rígida mãe, também temos cenas dela com o descontraído pai, aprendendo falcoaria, tendo licença para comer o que quiser e como quiser e partilhando histórias de aventuras. Quando Merida descobre que terá que se casar, ela está à mesa com ambos os pais. No entanto, sua fúria é dirigida à mãe, enquanto o pai, o real responsável pelo noivado da filha, observa em silêncio. Ao final, depois de todos os estágios de uma história de aventura, Merida abraça sua natureza dual, reconciliando-se tanto com a mãe, quanto com o pai”, Stéfanie explica.

Créditos: Walt Disney Pictures, Pixar

Outro exemplo nas animações da Disney com a narrativa da Jornada da Heroína é Mulan (1998), que conta a história da guerreira chinesa que se disfarça de homem para lutar na guerra no lugar do pai.

O universo de Star Wars também possui uma personagem que passa pela Jornada da Heroína durante a trilogia da terceira fase, Rey. Podemos ver a heroína passar por todos os estágios da jornada com os filmes Star Wars: O Despertar da Força (2015), Star Wars: Os Últimos Jedi (2017) e Star Wars: A Ascenção Skywalker (2019).

E por falar em heroína, temos a mais famosa: Mulher Maravilha. Diana é um ótimo exemplo por sua história, uma princesa que entra em conflito com a mãe para ajudar um desconhecido. Durante sua jornada, Diana percebe qual é sua verdadeira missão na terra. Mulher Maravilha (2017) faz parte do universo da DC Comics e é distribuído pela Warner Bros. Pictures.

A Jornada da Heroína no cinema

Também temos a heroína (literalmente) Carol Danvers, mais conhecida como Capitã Marvel (2019), que além de ser um ótimo exemplo da Jornada da Heroína, também faz parte do Universo Cinematográfico Marvel (MCU).

Apesar de também ter características da Jornada do Herói, a história de Katniss Everdeen, em Jogos Vorazes (2012), é um grande exemplo da Jornada da Heroína. Por meio da trilogia dos livros ou saga dos filmes, podemos ver os conflitos de Katniss em relação ao mundo, a ela mesma e seu papel na sociedade – Panem.

A animação japonesa do Studio Ghibli, A Viagem de Chihiro (2001), também pode ser um exemplo dessa narrativa; por contar as aventuras da pequena Chihiro buscando libertar os pais de uma maldição e querendo voltar a ter uma vida normal, saindo da experiência totalmente diferente de como começou.

“Na literatura, gosto de citar a série Napolitana (2011) da Elena Ferrante, onde a protagonista e narradora também passa pelos estágios descritos por Murdock”, Stéfanie Garcia recomenda.

Na série Game of Thrones (2011), temos uma das personagens principais, Arya Stark, completando toda a Jornada da Heroína ao longo das 8 temporadas.

Clique no tweet para acessar a Thread (sequência)

Jornada da Heroína x Jornada do Herói

Créditos: O Organismo (Jornada do Herói)

Embora pareça ser apenas uma diferença entre gêneros, por conta da troca de “heroína” por “herói”, essas narrativas são muito mais diferentes e complexas do que pensamos.

Stéfanie Garcia diz que “uma das principais diferenças entre a Jornada da Heroína e do Herói é que a Jornada da Heroína é, mesmo que estruturada em uma história de aventura, um processo interno e de autoconhecimento. Ambas as autoras (Murdock e Hudson) citam a forma espiral para representar os estágios da heroína, um processo cíclico. Já a Jornada do Herói é uma jornada externa de auto sacrifício. O herói deixa o seu “mundo comum” para se transformar, já a heroína ressignifica seu “mundo comum” pela sua própria transformação. Há, é claro, discussões sobre essas diferenças.”

Porém, não é só porque uma obra ou adaptação contém um protagonista masculino ou feminino fazendo uma jornada, que essa se encaixa como Jornada do Herói se for homem e Jornada da Heroína se for mulher. “É importante também ressaltar que o “feminino” e “masculino” referidos aqui são arquétipos, não gênero. Uma personagem mulher pode atravessar os estágios da Jornada do Herói, assim como uma personagem homem também pode percorrer os estágios da heroína”, completa Stéfanie.

Um exemplo disso está no filme Moana – Um Mar de Aventuras (2016), onde a jovem Moana passa pelos estágios da Jornada do Herói e na personagem Daenerys Targaryen, em Game of Thrones (2011).

Precisamos falar sobre a Jornada da Heroína!

Caso queira conhecer mais sobre a Jornada do Herói, confira o vídeo da Youtuber Carol Moreira, que possui um canal voltado para cinema:

Uma longa jornada

Embora já tenha 30 anos desde sua publicação, estudos e pesquisadores especializados na Jornada da Heroína aqui no Brasil são raros. Também não temos muitos exemplos em livros, séries e filmes, embora isso esteja mudando aos poucos.

Acho que ainda há um longo caminho a percorrer, mas quanto mais adaptações se apoiarem na Jornada da Heroína, mais pessoas vão pesquisar o assunto e desenvolver a teoria com maior profundidade e variedade.

– Stéfanie Garcia

Além disso, há alguns pontos e abordagens na Jornada da Heroína que precisam ser aprimorados afim da mesma ser mais inclusiva. “Embora o livro (The Heroine’s Journey) aborde mitos e lendas de várias culturas, é também permeado de histórias vivenciadas pelas pacientes de Murdock. Então, estamos falando de mulheres de um grupo específico que, compartilhando suas experiências, inspiraram esse modelo da heroína. Isso não se encaixa necessariamente na experiência de todas as mulheres, nem se limita à experiência somente das mulheres. A teoria da heroína não se aplica a todas as mulheres, nem pode ser considerada única e universal. É apenas uma das múltiplas possibilidades narrativas a serem desenvolvidas a partir de observações da vivência de mulheres no mundo, considerando-se o gênero, raça, classe, orientação sexual, etc. Quanto mais pesquisadoras e pesquisadores estudarem o assunto, mais modelos vão se formar, modelos baseados na experiência e cultura de grupos distintos da bibliografia consolidada”, conclui a pesquisadora Stéfanie Garcia.

Créditos: Warner Bros. Pictures

Autor: Mayara Pereira

Eu juro solenemente não fazer nada de bom.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s